Uma em cada três mulheres no Amazonas vive violência sem saber nomear o que sente
O Amazonas registra o segundo maior índice de subnotificação de violência doméstica do Brasil: 35% das mulheres do estado relataram situações concretas de agressão nos últimos 12 meses sem identificá-las como violência doméstica ou familiar, segundo a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, divulgada pelo DataSenado e pelo Observatório da Mulher contra a Violência (OMV) do Senado.
O estado fica atrás apenas de Alagoas, onde o percentual chega a 36%. A média nacional é de 29%.
O que aconteceu agora
O DataSenado e o Observatório da Mulher contra a Violência do Senado divulgaram o recorte estadual da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher com dados de 2025. O levantamento ouviu 21.641 mulheres em todo o Brasil e permite comparações por unidade da Federação — expondo desigualdades que a média nacional encobre.
No Amazonas, além dos 35% que relataram agressões sem reconhecê-las como violência, 7% das mulheres declararam espontaneamente ter sofrido violência no último ano. O percentual é quase o dobro da média nacional, que fica em 4%.
Os dados mostram que a lacuna entre o que as mulheres vivem e o que conseguem nomear é uma barreira anterior ao acesso a qualquer política pública de proteção.
— Se a mulher não reconhece o que vive como violência, torna-se muito mais difícil procurar proteção e acolhimento — afirmou Beatriz Accioly, gerente de políticas públicas pelo Fim da Violência Contra Mulheres no Instituto Natura, parceiro no Mapa Nacional da Violência de Gênero.
Maria Teresa Prado, coordenadora do Observatório da Mulher contra a Violência do Senado, reforçou o diagnóstico:
— Ampliar a Rede de Proteção é fundamental, mas os dados mostram que precisamos olhar também para o que acontece antes de a mulher chegar na Rede. Uma política pública só consegue proteger plenamente quando as mulheres têm informação para reconhecer a violência, conhecem seus direitos e encontram caminhos acessíveis e seguros para buscar ajuda — afirmou Prado.
O que veio antes
A pesquisa é realizada há 20 anos pelo Senado e é a maior do país sobre violência doméstica contra mulheres. A edição anterior já apontava o Amazonas entre os estados com indicadores acima da média nacional. A nova edição traz, pela primeira vez, o recorte estadual atualizado com dados de 2025, disponível na plataforma Mapa Nacional da Violência de Gênero.
Por que esse número importa
A subnotificação não é apenas uma falha estatística. Ela representa mulheres que vivem situações de risco sem acionar a rede de proteção — porque não sabem que estão em risco.
No Brasil, 78% das mulheres afirmam conhecer pouco (67%) ou nada (11%) sobre a Lei Maria da Penha, segundo a mesma pesquisa. O levantamento não detalha o percentual específico do Amazonas nesse indicador.
Em todo o país, 12% das mulheres responderam que ainda moram com o agressor. Os dados estaduais específicos do Amazonas para esse indicador não foram detalhados na pesquisa divulgada pela Agência Senado.
O que os números nacionais já revelam é estrutural: em 62% dos casos no Brasil, o agressor é o marido ou companheiro da vítima. Nos estados vizinhos ao Amazonas, o percentual é ainda maior — no Acre, chega a 73%.
— Quando olhamos para esses dados em conjunto, conseguimos entender que enfrentar a violência de gênero exige mais do que responder à agressão: exige políticas capazes de olhar para as condições que permitem que essas mulheres reconstruam suas vidas — disse Vitória Régia da Silva, diretora executiva da Gênero e Número, uma das organizações parceiras da pesquisa.
A percepção das mulheres amazonenses
A pesquisa também captou como as mulheres percebem o ambiente em que vivem. Em todo o Brasil, 79% acreditam que a violência doméstica aumentou nos últimos 12 meses. Os dados estaduais específicos do Amazonas para esse indicador não constam no material divulgado.
Para 70% das mulheres entrevistadas no país, o Brasil é um país muito machista. Alguns estados do Norte — Amapá (59%), Rondônia e Roraima (ambos com 61%) — registraram percentuais abaixo da média nacional nesse quesito. O dado específico do Amazonas não foi discriminado no material.
O que os dados significam na prática
A distância entre viver uma agressão e reconhecê-la como crime tem consequências diretas: mulheres que não se identificam como vítimas não buscam delegacias, não acionam o Ligue 180, não solicitam medidas protetivas e não chegam aos centros de referência.
José Henrique Varanda, coordenador do Instituto de Pesquisa DataSenado, descreveu o alcance da plataforma que reúne os dados:
— O Mapa Nacional não é apenas mais um agregador de dados sobre o tema. Ao contrário, é talvez o principal instrumento público, efetivo, capaz de expor, comparar, confrontar e mudar a realidade vivida, a cada 12 meses, pelas mulheres no Brasil — declarou Varanda.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, situou a divulgação no contexto do Agosto Lilás — mês de conscientização sobre a Lei Maria da Penha, que completa 20 anos em 2025:
— Dados confiáveis ajudam a aperfeiçoar leis, direcionar ações governamentais e fortalecer iniciativas de prevenção e acolhimento. Conhecer a realidade é condição indispensável para transformá-la — declarou Alcolumbre.
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*A Lei Maria da Penha foi sancionada em 7 de agosto de 2006. Em duas décadas, tornou-se referência internacional no enfrentamento à violência doméstica — e ainda assim, segundo a pesquisa do Senado, a maioria das brasileiras afirma conhecer pouco ou nada sobre ela.*


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