O Papa Leão XIV apresentará na segunda-feira a sua visão sobre como preservar a dignidade humana na era da inteligência artificial.
Ele apresentará as suas ideias publicando uma espécie de documento conhecido como encíclica, uma tradição papal de quase 400 anos de ensino aos fiéis católicos romanos. O documento será a primeira encíclica de Leão desde que ele se tornou papa no ano passado.
Escritas pelo papa e geralmente dirigidas a toda a Igreja, as encíclicas transmitem ensinamentos oficiais sobre desafios morais ou sociais. Falta-lhes o estatuto jurídico de uma bula papal, que é uma declaração formal de um artigo de fé ou lei moral. Mas os católicos ainda são encorajados a usar encíclicas para orientar os seus estilos de vida e escolhas.
Os papas normalmente não comparecem à apresentação das suas encíclicas, mas Leo deverá apresentar a sua pessoalmente no Vaticano ao lado de Christopher Olah, fundador da Anthropic, um importante desenvolvedor de IA, e vários prelados e teólogos católicos.
Os papas têm escrito cartas aos fiéis desde os primeiros dias da Igreja, mas Bento XIV, papa de 1740 a 1758, é creditado por ter codificado a encíclica tal como é entendida hoje.
Aqui estão cinco encíclicas anteriores que se destacam.
1. Sobre os Direitos dos Trabalhadores: “Coisas novas”
Publicada em 15 de maio de 1891, esta encíclica do Papa Leão XIII tornou-se uma base para o ensino social católico romano.
Não é por acaso que o atual papa escolheu o nome papal do Papa Leão XIII, e assinou formalmente sua primeira encíclica, “Magnifica Humanitas”, ou Magnífica Humanidade, em 15 de maio de 2026, embora apresente o documento publicamente 10 dias depois.
Após a convulsão da Revolução Industrial, “Rerum Novarum”, ou “Das Coisas Novas”, abordou as necessidades da classe trabalhadora e ajudou a desencadear um movimento de justiça social. A encíclica defendia os direitos dos trabalhadores, incluindo o direito de formar sindicatos e de ganhar um salário digno, ao mesmo tempo que rejeitava tanto o socialismo da época como o capitalismo laissez-faire.
Escrito em 1963, no contexto da Guerra Fria, o Papa João XXIII apresentou um catálogo de direitos que, segundo ele, todas as pessoas e nações tinham o dever de respeitar. Ao contrário das encíclicas anteriores, o documento foi dirigido a toda a humanidade, não apenas aos católicos.
A encíclica, que significa “Paz na Terra”, apelava à proibição das armas nucleares e sugeria a criação de uma autoridade pública global que promovesse o “bem comum universal”, vendo as Nações Unidas como um primeiro passo nessa direcção. O documento exortava as pessoas a participarem na vida pública “e a trabalharem juntas para o benefício de toda a raça humana”.
Quando foi publicado, o The New York Times imprimiu o texto inteiro.
3. Sobre controle de natalidade: “Vida Humana”
A encíclica de Paulo VI em 1968 confirmou a proibição da Igreja do controle artificial da natalidade. Imediatamente provocou um debate entre os católicos que continuou por décadas.
O ponto central da encíclica, cujo título significa “Da Vida Humana”, era que todo ato sexual deveria estar livre de qualquer esforço deliberado para impedir a concepção.
Nem todos os católicos concordam. De acordo com um Pesquisa do Pew Research Center de 2024a maioria dos católicos nos Estados Unidos e na América Latina disse que a Igreja deveria permitir o uso de métodos contraceptivos artificiais. E para impedir a propagação da SIDA, muitos bispos têm oferecido desde então apoio qualificado ao ensino sobre preservativos.
A encíclica do Papa Bento XVI de 2009, “Caridade na Verdade”, apelou a um repensar radical da economia global. A declaração criticava o fosso crescente entre ricos e pobres, instava os financiadores a comportarem-se de forma mais ética e apelava às empresas para que exercessem uma maior responsabilidade social.
Tal como a “Pacem in Terris” de João XXIII, a encíclica de Bento XVI também apelou a uma autoridade política global para desempenhar um papel na regulação da economia. Muitos académicos admiraram as poderosas reflexões do documento sobre as ligações entre o amor, a verdade e a justiça, mas alguns críticos consideraram a encíclica uma leitura difícil, citando a prosa densa e a vasta gama de temas.
5. Sobre Meio Ambiente: “Laudato Si’”
Escrita pelo Papa Francisco em 2015, “Laudato Si’”, ou “Louvado seja Ti”, foi a primeira encíclica focada exclusivamente no meio ambiente. O documento apelava às pessoas para que cuidassem do planeta, enquadrando essa obrigação como um imperativo moral e espiritual, e não apenas uma consideração de política, ciência e economia. Quando a encíclica foi publicada, o The Times publicou uma versão interativa online.